Quem Lê Muito Conversa Pouco. Por que?
Minha namorada tem reclamado comigo ultimamente dizendo que eu sou uma pessoa que fala muito pouco. Na verdade eu nunca escondi isto de ninguém (claro, afinal, não há como esconder de uma pessoa próxima uma coisa dessas) e isto na verdade este jeito de ser nunca me incomodou.
Pensei em escrever um texto sobre por que acho que a leitura e a escrita (ou seja, o exercício intelectual) conduz uma pessoa a uma vida mais “calada”, mas, após pensar um pouco, decidi reproduzir aqui o que um escritor que aprecio já chegou a escrever antes de mim (e com propriedade).
Seu nome é Philip Yancey. Ele é um dos escritores cristãos mais respeitados do mundo atualmente. Abaixo, apenas reproduzi integralmente algumas palavras encontradas no décimo capítulo do seu livro Alma Sobrevivente: sou cristão apesar da igreja (Mundo Cristão, 2004):
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A partir de cartas que recebo e dos comentários que ouço em festas e lançamentos de livros, chego à conclusão de que as pessoas têm uma visão romântica da vida de um escritor. Estas pessoas nunca estiveram ao lado de um escritor que fica parado 15 minutos diante de um dicionário de sinônimos em busca de uma única palavra. Devido ao próprio trabalho, os escritores levam uma vida solitária. Trabalhamos sozinhos, fugindo de qualquer distração, e criamos nossa própria realidade particular, explorando-a e domesticando-a até que chega o momento quando o editor começa a instigar outras pessoas a trabalharem conosco – momento em que, naturalmente, estamos felizes, construindo outra realidade falsa. Na maior parte das vezes, o mundo que criamos é muito mais interessante do que aquela triste realidade na qual vivemos.
Às vezes tenho a impressão de que a minha vida de escritor se sobressai à minha vida real. Fico pensando: “Se eu não escrevesse, será que eu chegaria mesmo a existir?”. Como posso saber o que penso ou sinto sem abrir meu computador e começar a escrever sobre aquilo? Lembro-me de um dia em que trabalhava em uma pequena história numa manhã bem cedo. Por três horas, esforcei-me para desenvolver personagens tridimensionais, tirando todos os clichês de seus diálogos. Iniciante na ficção, estava ficando com uma terrível dor de cabeça por causa do esforço. Naturalmente, usava isto como desculpa para parar de escrever, atravessar a rua e tomar um café. Imagine a minha surpresa ao descobrir que todas as pessoas da cafeteria eram pessoas bidimensionais, que falavam usando clichês! Nenhuma daquelas pessoas parecia-me tão interessante quanto as pessoas que povoavam minha história. Corri de volta para a segurança de minha falsa realidade que me esperava (e somente a mim) no meu escritório no porão.
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Comentários gerais sobre estas palavras de Philip Yancey: leituras como esta acima geram em algumas pessoas um grande desconforto. Tem pessoas que tem pavor de viver da forma como Yancey diz que vive. Outras pessoas (como eu), porém, sentem alívio. É bom saber que não sou somente eu quem acho que a solidão de uma falsa realidade é mais muito mais agradável do que a esta vida estranha que vivemos.
Quem lê e escreve muito se sente estranho neste mundo. Também, como poderia ser diferente? Enquanto lê ou escreve você idealiza o mundo da forma como quiser: pessoas sem defeito, igrejas sem defeitos, mundo sem defeitos... porém, quando se volta ao mundo real e se depara com a realidade... é realmente frustrante.
Imagine que decepção eu sinto quando tenho de parar de ler “O Senhor dos Anéis” e me preparar para uma aula de Matemática Financeira. Imagine como é frustrante passar horas escrevendo um capítulo para um livro sobre a racionalidade da crença em Deus em resposta a acusações ateístas e depois, no domingo seguinte, ir a um culto e ver a triste verdade de que a realidade é completamente distante da idealização que você escreveu no papel!
Quem lê muito ou tem o hábito de escrever fala pouco, pois não há muito o que falar! Aquilo que nos interessa quase sempre não interessa às pessoas de fora. No fim, só nos resta a nós amar a nós mesmos, e as folhas de papel que hora trazem coisas interessantes para nós lermos, hora aceitam sem reclamar aquilo que falamos com elas através da escrita.
Enfim, é difícil explicar estas coisas. Mas não se assustem achando que sou infeliz em minha vida. Pelo menos no meu caso eu jamais me incomodei com esta solidão que o hábito da leitura traz, pelo contrário, raramente me encontro triste ou decepcionado. Como Yancey disse, nós podemos criar uma realidade falsa e viver nela sempre que desejarmos!
Comentário específico à minha namorada: jamais pense que falo pouco por não te considerar. Muito pelo contrário, eu te considero meu maior poema. Você é o poema mais lindo já escrito! Viver com você é mais excitante do que ler qualquer conto de fadas! Aliás, eu sempre penso em você como uma linda princesa, e em nosso amor como algo poético tão como os romances de Shakespeare. Na verdade, somente seu olhar e seu beijo fazem o sapo Eliel se sentir (pelo menos por alguns instantes) um príncipe. A realidade é incrivelmente chata, mas você é tão perfeita que quase penso que você é irreal. Enfim, as palavras de Philip Yancey usadas neste texto foram retiradas de um livro que você me deu de aniversário. Elas me ajudaram a perceber que não é tão estranho assim ser uma pessoa solitária e calada... então agora agüenta!, a culpa é sua (risos).
Eliel Vieira
eliel@elielvieira.org

DESCONSTRUINDO por Eliel Vieira está licenciado sob Creative Commons Attribution.
Pensei em escrever um texto sobre por que acho que a leitura e a escrita (ou seja, o exercício intelectual) conduz uma pessoa a uma vida mais “calada”, mas, após pensar um pouco, decidi reproduzir aqui o que um escritor que aprecio já chegou a escrever antes de mim (e com propriedade).
Seu nome é Philip Yancey. Ele é um dos escritores cristãos mais respeitados do mundo atualmente. Abaixo, apenas reproduzi integralmente algumas palavras encontradas no décimo capítulo do seu livro Alma Sobrevivente: sou cristão apesar da igreja (Mundo Cristão, 2004):
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A partir de cartas que recebo e dos comentários que ouço em festas e lançamentos de livros, chego à conclusão de que as pessoas têm uma visão romântica da vida de um escritor. Estas pessoas nunca estiveram ao lado de um escritor que fica parado 15 minutos diante de um dicionário de sinônimos em busca de uma única palavra. Devido ao próprio trabalho, os escritores levam uma vida solitária. Trabalhamos sozinhos, fugindo de qualquer distração, e criamos nossa própria realidade particular, explorando-a e domesticando-a até que chega o momento quando o editor começa a instigar outras pessoas a trabalharem conosco – momento em que, naturalmente, estamos felizes, construindo outra realidade falsa. Na maior parte das vezes, o mundo que criamos é muito mais interessante do que aquela triste realidade na qual vivemos.
Às vezes tenho a impressão de que a minha vida de escritor se sobressai à minha vida real. Fico pensando: “Se eu não escrevesse, será que eu chegaria mesmo a existir?”. Como posso saber o que penso ou sinto sem abrir meu computador e começar a escrever sobre aquilo? Lembro-me de um dia em que trabalhava em uma pequena história numa manhã bem cedo. Por três horas, esforcei-me para desenvolver personagens tridimensionais, tirando todos os clichês de seus diálogos. Iniciante na ficção, estava ficando com uma terrível dor de cabeça por causa do esforço. Naturalmente, usava isto como desculpa para parar de escrever, atravessar a rua e tomar um café. Imagine a minha surpresa ao descobrir que todas as pessoas da cafeteria eram pessoas bidimensionais, que falavam usando clichês! Nenhuma daquelas pessoas parecia-me tão interessante quanto as pessoas que povoavam minha história. Corri de volta para a segurança de minha falsa realidade que me esperava (e somente a mim) no meu escritório no porão.
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Comentários gerais sobre estas palavras de Philip Yancey: leituras como esta acima geram em algumas pessoas um grande desconforto. Tem pessoas que tem pavor de viver da forma como Yancey diz que vive. Outras pessoas (como eu), porém, sentem alívio. É bom saber que não sou somente eu quem acho que a solidão de uma falsa realidade é mais muito mais agradável do que a esta vida estranha que vivemos.
Quem lê e escreve muito se sente estranho neste mundo. Também, como poderia ser diferente? Enquanto lê ou escreve você idealiza o mundo da forma como quiser: pessoas sem defeito, igrejas sem defeitos, mundo sem defeitos... porém, quando se volta ao mundo real e se depara com a realidade... é realmente frustrante.
Imagine que decepção eu sinto quando tenho de parar de ler “O Senhor dos Anéis” e me preparar para uma aula de Matemática Financeira. Imagine como é frustrante passar horas escrevendo um capítulo para um livro sobre a racionalidade da crença em Deus em resposta a acusações ateístas e depois, no domingo seguinte, ir a um culto e ver a triste verdade de que a realidade é completamente distante da idealização que você escreveu no papel!
Quem lê muito ou tem o hábito de escrever fala pouco, pois não há muito o que falar! Aquilo que nos interessa quase sempre não interessa às pessoas de fora. No fim, só nos resta a nós amar a nós mesmos, e as folhas de papel que hora trazem coisas interessantes para nós lermos, hora aceitam sem reclamar aquilo que falamos com elas através da escrita.
Enfim, é difícil explicar estas coisas. Mas não se assustem achando que sou infeliz em minha vida. Pelo menos no meu caso eu jamais me incomodei com esta solidão que o hábito da leitura traz, pelo contrário, raramente me encontro triste ou decepcionado. Como Yancey disse, nós podemos criar uma realidade falsa e viver nela sempre que desejarmos!
Comentário específico à minha namorada: jamais pense que falo pouco por não te considerar. Muito pelo contrário, eu te considero meu maior poema. Você é o poema mais lindo já escrito! Viver com você é mais excitante do que ler qualquer conto de fadas! Aliás, eu sempre penso em você como uma linda princesa, e em nosso amor como algo poético tão como os romances de Shakespeare. Na verdade, somente seu olhar e seu beijo fazem o sapo Eliel se sentir (pelo menos por alguns instantes) um príncipe. A realidade é incrivelmente chata, mas você é tão perfeita que quase penso que você é irreal. Enfim, as palavras de Philip Yancey usadas neste texto foram retiradas de um livro que você me deu de aniversário. Elas me ajudaram a perceber que não é tão estranho assim ser uma pessoa solitária e calada... então agora agüenta!, a culpa é sua (risos).Eliel Vieira
eliel@elielvieira.org

DESCONSTRUINDO por Eliel Vieira está licenciado sob Creative Commons Attribution.







Cara, muito legal seu depoimento. Creio que o hábito da leitura faz isso com a gente mesmo. Lembro-me que em um fim de ano, em uma viagem, eu costumava me retirar para ler e meditar, e o povo não entendia nada...Enfim...
Não precisa sair do mundo que você criou a fim de conversar comigo. Simplesmente me fale sobre o que você vive nesse mundo e me coloque dentro da sua história! Ouvir suas divagações e devaneios é mais interessante pra mim que o melhor dos livros! É como se eu estivesse dentro de você!
Te amo!
Fica na paz!
Estive visitando novamente o seu blog, e achei mais legal ainda.Cada vez melhor - parabéns!
Corrigi uma falha minha, pois ainda não era seu seguidor, mas passei a segui-lo.
Gostaria de lhe convidar a visitar o meu: ecclesiareformanda.blogspot.com
Um abraço!
Alberto M de Oliveira
Também vou colocar um link seu na lista dos meus favoritos...
Abraços
Alberto
:)
sempre fui fascinado pela filosofia, dediquei alguns anos anos somente a leituras dos livros de Nietzsche e foi uma influência poderosa e difício de ser superada...além de um filósofo de introspecção profunda, Nietszche, foi também um grande filólogo. escrevia com facilidade e eloquência... felizmente, depois de conhecer as obras do William Lane Craig, do Michael Behe, Phillip Johnson, consegui respirar fora da atmosfera Nietszcheana...
os níveis de assuntos dos quais nós gostamos, dentro de um país que ainda engatinha em termos de tradição cultural, realmente nos faz sentir-mos meio que isolados...posso sentir isso com angustia diariamente.
tenho acompanhado a leitura sutil e sempre bem colocada de varios textos que vc tem escrito e inclusive em disrcuções com amigos tem feito uso de vários dos seus argumentos que me tem sido muito úteis!...
continue firme em suas perquirições, pois sempre vai ter alguém querendo vê qual é a sua última palavra pois ela pode ser um excelente gancho ou ferramenta de uso que ajudará outros a desvirginar outras florestas virgens...
veio-me a mente, um pensamentno do filósofo Huberto rodhen que é mais ou mesnos o seguinte:
falar é bom, calar é melhor; pensar é necessário, intuir é o suficiente.
e Nietzsche dizia: so se deve falar daquilo que já se superou...!
que a paz do Senhor Jesus seja a tua companheira insepável e de todos aqueles que vc ama e te são tão caros...!
Lusivan.