Deus, Galinhas e Mentes - Resposta ao Argumento da Contingência Contra a Existência de Deus, de Eli Vieira
![]() |
| Leibniz (1646 - 1716): ele também propôs um argumento contingencial relacionado a Deus, contudo, sua conclusão foi de que Deus necessariamente deve existir. |
Caro anônimo,
Obrigado pela sua pergunta, em primeiro lugar. Esta mesma pergunta já foi feita a mim por duas ou três vezes pelo ateu Eli Vieira, fundador e presidente da Associação Brasileira do Bule Voador. Na verdade, isto que você chama de “objeção ateísta” é, na verdade, uma objeção elaborada por Eli Vieira. Eu sinceramente não me recordo de ter visto esta objeção contingencial (se é que posso chamá-la assim) sendo exposta por outros ateus além de Eli. Apesar dela levar em conta algumas idéias propostas por Dawkins em Deus, um delírio, a formulação de Eli é original. Acho que ele merece todos os créditos por esta objeção que, reconheço, é interessante. (Apesar de Eli ter me pedido uma resposta a esta pergunta por mais de uma vez eu não respondi a ele, pois ele praticou o que considero ser uma impostura intelectual digna de pena, ao me fazer esperar por sua resposta por 51 semanas e então dizer, “Não vou te responder, tchau” – mas este não é o ponto em discussão aqui.)
Eu tenho reservas em chamar esta “objeção” de argumento, uma vez que (sinceramente) é difícil enxergar com clareza quais venham a ser suas premissas e como elas conduzem logicamente à conclusão pretendida pelo seu elaborador. Acho que se trata mesmo de uma objeção, um possível invalidador, para a ideia da existência de uma “mente divina”. A exposição desta objeção é feita no texto de Eli Vieira “Opiniões, mentes e peixes”, então é interessante que você o leia, anônimo, caso ainda não o tenha feito.
O texto em questão começa expondo porque é racional acreditar que o cérebro se desenvolveu ao longo de todas as contingências da história do universo. Eli Vieira é biólogo, eu não tenho motivos para duvidar de sua objetividade, então não há porque eu questionar as informações científicas que ele cita neste texto. Portanto, conforme ele disse, bilhões de ocorrências e fenômenos, sem razão e sem propósito, passo a passo, geraram a poderosa e complexa máquina do cérebro humano. Toda a apresentação básica de Eli se justifica, pois, em suas palavras, “o cérebro é responsável pela mente”. Uma vez que chegamos a esta conclusão surge a pergunta inevitável: como é possível que creiamos na existência de Deus, dotado de “mente”, uma vez que a “mente” humana, a única que conhecemos, precisou de bilhões de anos para evoluir e chegar a ser o que é? Em outras palavras, se a única “mente” que conhecemos é um efeito contingente a bilhões de fenômenos aleatórios, como uma mente pode ser a causa explicativa para estes fenômenos que tentamos explicar? O texto abaixo resume bem a objeção contingencial para a existência de Deus.
Como [...] mentes divinas podem ser conhecidas como responsáveis pela origem do universo? Quando o que conhecemos sobre mentes é praticamente isso aí? Não achamos sequer mentes que evoluíram em outros planetas ainda, que podemos nós dizer sobre mentes sintonizando constantes físicas para, com propósito, intenção, teleologia, CRIAR universos?
Como eu disse acima, é uma questão interessante, para a qual não tenho pretensão alguma de fechar, aqui, com este pequeno texto. Não tenho interesse em “refutar” esta objeção, mas vou apresentar aqui alguns insights, alguns pontos que vieram à minha mente enquanto lia o texto “Opiniões, mentes e peixes”, de Eli Vieira.
Em primeiro lugar, a questão de Eli parece pressupor a conclusão do ateísmo. Em inglês usa-se um termo muito interessante para explicar esta falácia, begging the question, (em uma tradução literal, ela implora por seus pressupostos), isto é, a premissa principal do argumento é formulada já pressupondo a conclusão que ela pretende chegar. Trata-se de uma das formas da falácia “petição de princípio”, ou “argumentação circular”, termos que ouvimos com maior frequência. Perceba que o argumento de Eli simplesmente presume que o ateísmo é verdadeiro, para depois percorrer um caminho um tanto longo e enfim apresentar sua conclusão oficial de que a existência de Deus é algo improvável.
Eli faz isto várias vezes neste texto. Quando ele diz, por exemplo, que “o cérebro é responsável pela mente”, ou que “a mente é tão nossa quanto a língua” (tratando da “fisicalidade” da mente), ele está obviamente pressupondo o naturalismo metafísico, a idéia de que “o universo é tudo o que já foi, tudo o que é e que será”, usando as famosas palavras de Carl Sagan. Eli exclui de antemão a possibilidade de existirem espíritos, almas, deuses, ou qualquer outra propriedade ou substância que não seja física. Mas, veja bem, Eli não concluiu que este tipo de entidade não existe, ele simplesmente pressupôs a inexistência destas ao abraçar o naturalismo metafísico. Especialmente no caso da “mente” existe uma discussão filosófica, que está longe do fim, que Eli simplesmente ignorou em seu texto. As tentativas de materialistas de tentar apresentar um modelo que explique a liberdade humana, antítese do determinismo que deveríamos observar em um universo dotado de uma única substância, não têm sido muito bem sucedidas. (Note que Dawkins ficou extremamente desconcertado quando David Quinn levantou a ele a questão do livre-arbítrio.) Grosso modo, se nossa mente possui a mesma substância (no sentido metafísico) do que um pau de galinheiro, então a mente deveria possuir as mesmas propriedades ontológicas que um pau de galinheiro possui, portanto seria tão livre quanto este o é. Ainda cabe aos monistas apresentar um modelo no qual esta relação (livre-arbítrio x materialismo metafísico) seja possível e coerente – o que sinceramente ainda não vi. O livro Metafísica: Conceitos-Chave em Filosofia (Brian Garett) levanta algumas questões, apresentando pontos positivos e negativos tanto do monismo quanto do dualismo, sem apresentar conclusões. Certo é que a discussão não parece estar perto do fim.
Outro momento em que Eli “implora à questão” é quando ele simplesmente pressupõe que não houve teleologia no surgimento do ser humano. Para ele tanto o surgimento da vida quanto sua progressiva evolução até o complexo estado de mentes foram fenômenos totalmente aleatórios, sem propósito, sem razão, puramente físicos e contingenciais. Ora, não estou argumentando que Eli deveria pressupor a crença em Deus, mas “Deus não existe” deveria ser a conclusão de sua objeção, não a base epistêmica para a principal premissa de sua objeção. Pressupondo o ateísmo, não há conclusão alguma possível que não seja o próprio ateísmo! Argumentar que a mente é o resultado de processos aleatórios, físicos, contingentes e sem propósito e que, portanto, Deus é um ser de existência improvável, é apenas um eufemismo para “Uma vez que o ateísmo é verdadeiro, então Deus não existe”. Como o ateísmo é uma afirmação de conhecimento quanto qualquer outra proposição (fonte) que se pretende ser verdadeira, então ele não pode simplesmente ser aceito como que tendo algum status epistêmico especial que lhe torne imune à necessidade de justificação. Eu não tenho obrigação alguma de partilhar do pressuposto de Eli de que a mente é um resultado improvável e aleatório de um processo sem teleologia simplesmente pelo fato de que se trata apenas de um pressuposto. Houve um processo de evolutivo que foi responsável pela diversificação da vida? Os biólogos dizem que sim e eu, como leigo e por não ver motivos para duvidar da objetividade de suas interpretações dos fatos, posso concordar. Mas que descoberta científica garante necessariamente, e sem margem para dúvidas, a exclusão da possibilidade “Deus” logo de princípio? O que, efetivamente, justifica a crença de que o processo evolutivo foi sem causa, sem propósito, fruto apenas de contingencias?
Portanto, em primeiro lugar, eu vi vários ecos de ateísmo durante o desenvolvimento da objeção de Eli Vieira que objetiva, no fim das contas, apresentar um invalidador para a possibilidade da existência de Deus por ele ser (ou possuir) uma “mente”.
Em segundo lugar, acredito ter enxergado um tipo de argumento de ignorância em uma parte-chave do texto de Eli. Em suas próprias palavras, “Como [...] mentes divinas podem ser conhecidas como responsáveis pela origem do universo? Quando o que conhecemos sobre mentes é praticamente isso aí?”. Será que conhecemos o suficiente sobre “mentes” para podermos afirmar que o conceito de “mentes divinas” é tão irracional assim? “Mentes divinas não podem ser explicação para a origem do universo” é uma afirmação de conhecimento e, como tal, precisa de justificação. Contudo, não acho que “bem, o que conhecemos sobre mente é isso aí” seja uma sustentação epistêmica suficiente para os propositos de Eli. Ele deve mostrar (de preferência sem uso de pressuposições ateístas) por qual razão o conhecimento que temos hoje necessariamente conduz os dados apresentados por ele sobre a origem da mente humana para a conclusão de que “mentes divinas não podem ser explicação para a origem do universo”. Nós simplesmente não vemos qual é a sustentação para esta “ponte” no texto “Opinião, mentes e peixes”. Eli pretende que concordemos com sua afirmação de que uma mente divina não pode explicar a origem do universo simplesmente porque a única espécie de mente que ele conhece surgiu de forma totalmente contingencial e sem propósito (aqui, como dito, ele simplesmente pressupõe a não-existência de propósito). Ora, em primeiro lugar, o óbvio!, o fato dele não conhecer outros tipos de mente não significa que elas não existam; em segundo lugar, por que cargas d’água uma mente sobrenatural deveria necessariamente ser do mesmo tipo que uma mente humana e necessitar ser explicada com o mesmo tipo de origem? Se estamos tratando da possibilidade de existência de uma mente sobrenatural, então me parece que é de pouca serventia a maneira como a mente natural veio a surgir.
Segundo o conceito de “indiscernibilidade de idênticos”, proposto pelo filósofo Leibniz (que curiosamente também formulou argumento contingencial em relação a Deus, porém argumentando a favor de sua existência), dois entes são idênticos se, e somente se, todo P verdadeiro a um ente for verdadeiro também ao outro ente. Ao falarmos de dois tipos de “mente”, elas são idênticas se, e somente se, todo conjunto de propriedades que for verdadeiro a um tipo de mente for verdadeiro também ao outro. O problema com a objeção de Eli é que este simplesmente não é o caso. Eli pretende negar a existência de uma mente divina com atributos divinos, a mente de um ser, segundo suas palavras “maior do que o qual nada pode ser pensado”. Se Eli pretende negar a existência de uma mente divina limitada e submissa a contingências eu simplesmente concordo com suas conclusões de improbabilidade ou inexistência. Mas Eli não pretendeu isto – Eli pretendeu refutar a possibilidade de existência de uma mente divina, e uma mente divina não simplesmente não é idêntica a uma mente humana. São entes distintos, com características distintas. A mente cuja existência Eli pretendeu invalidar é uma mente eterna, não uma mente presa a contingências. E isto tem um peso enorme. Leia o texto “Opiniões, mentes e peixes” quantas vezes você quiser e verás que Eli simplesmente não levou em consideração possíveis (e necessárias) distinções entre uma mente humana e uma mente divina (perceba que a distinção se faz necessária logo ao classificá-las com diferentemente, como “humana” ou “divina”).
Falei demais neste segundo ponto, então apenas para não correr o risco de parecer confuso demais, Eli apresentou porque a mente (P) surgiu de forma aleatória, sem propósitos, de forma totalmente contingencial, e tentou com isto argumentar que qualquer possibilidade de existência de uma mente (P+Q) deva ser descartada logo de antemão.
Em terceiro lugar, Eli trata de forma completamente equivocada a atribuição de estados mentais a Deus. A verdade é que ao atribuir a Deus uma mente (ou estados mentais) estamos apenas assumindo nossa ignorância em relação ao Ser de Deus e praticando um antropomorfismo de forma a conseguirmos compreendê-Lo ou explicá-Lo melhor.
A incompreensibilidade de Deus (caso exista) talvez seja um dos raros pontos onde ateus e cristãos concordam. Certa vez li um ateu dizendo que “um ser como Deus pode até existir, mas certamente ele é um ser totalmente diferente do ‘Deus antropomórfico’ dos cristãos”. E a incompreensibilidade de Deus não é algo recente na Teologia. Isto é defendido por teólogos a séculos e está presente também na Bíblia. Para driblar esta dificuldade em compreender Deus, seus propósito e seu “humor”, faz-se uso de antropomorfismos ou antropopatismos, mas os cristãos estão muito cientes das limitações existentes com esta prática. Eu duvido que as pessoas realmente acreditam que Deus possui um olho físico que está percorrendo toda terra, ou que sua mão sustenta as águas dos mares.
Ainda na Bíblia várias analogias são empregadas para exemplificar características de Deus para as quais os escritores não conseguiam encontrar palavras suficientes para explicar. Deus é chamado na Bíblia, por exemplo, de pai (Mateus 6:9), rei (Salmo 145:1), pastor (Salmo 23:1), juiz (Salmo 7:12) e general (Zacarias 4:6); além disso, alguns animais já foram usados em analogias a Deus como Leão (Apocalipse 5:5), Cordeiro (João 1:29), Pomba (Mateus 3:16) e até Galinha (Mateus 23:37); Deus ainda é comparado a uma série de coisas e objetos inanimados como escudo (Salmo 3:4), abrigo (Salmo 7:2), rocha (Salmo 28:1), luz (João 8:12), etc. Os escritores bíblicos reconheciam a dificuldade existente ao falar de Deus. Desta forma, o uso de metáforas e analogias foi muito utilizado. Podemos observar o uso destas metáforas por toda a Bíblia, especialmente nos salmos, que são os escritos mais poéticos existentes na Bíblia.
Isto não quer dizer, porém, que Deus se reduz ao mesmo nível dos objetos utilizados na explicação. Quando alguém faz uso de uma analogia para entender Deus, está pessoa não está colocando Deus sob a analogia apresentada, como se Deus não pudesse ser compreendido à parte da analogia usada, ou como se a analogia empregada fosse de fato mais do que uma simples analogia. Alister McGrath explica este ponto da seguinte forma:
Ao assim proceder [fazendo uso de analogias], a teologia não reduz Deus ao nível dos objetos ou seres criados, mas apenas afirma a existência de certa semelhança de correspondência entre Deus e o ser do mundo que permite a este agir como sinal de Deus. Entidades criadas poderiam, assim, ser como Deus sem se tornarem idênticas a ele.
Quando afirmamos, portanto, que Deus é pai, por exemplo, não estamos com isso tentando dizer que em todos os aspectos possíveis Deus é semelhante a um pai, antes, estamos dizendo que a figura do pai pode ser empregada para nos ajudar a entender Deus, pois em alguns aspectos (alguns, não todos) Deus se assemelha a um pai. Uma semelhança entre “Deus” e um “pai” seria, por exemplo, que Deus foi quem nos criou, sendo assim, o termo “relação paternal” usado para identificar uma relação “pai x filho” poderia ser empregado para identificar de forma análoga como é a relação entre Deus e seus “filhos”. Outra analogia muito utilizada é de Deus como “rei”. Quando as pessoas afirmam que Deus é rei elas estão querendo dizer que em alguns aspectos (alguns, não todos) Deus é semelhante a um rei, por exemplo, ambos (Deus e os reis) possuem soberania sobre aquilo que lhe pertencem. Um rei é tão “dono” de suas terras como Deus é “dono” do seu universo. Desta forma a semelhança apresentada ajuda as pessoas a entender ou explicar Deus às demais pessoas de forma análoga, usando como exemplos coisas comuns a todos.
Porém, quando afirmamos que Deus é “pai” ou “rei”, não estamos querendo dizer que em todos os aspectos Deus é semelhante a um pai ou um rei. Deus pode ser concebido na forma análoga de um pai, mas daí não se pode concluir que Deus tenha um pênis. Da mesma forma, a soberania de um rei pode ser usada para explicar Deus, mas Deus não é tirano como alguns reis ao longo da história foram. Quando se usa as figuras de um “leão” ou de uma “galinha” não estamos querendo dizer que Deus possui rabo ou bota ovos. As analogias são limitadas. Elas nos ajudam a entender Deus em alguns aspectos, mas todas são falhas em alguns pontos. Todas as proposições análogas a Deus são incompletas.
Convém dizer aqui que esta prática de explicar coisas inexplicáveis utilizando analogias limitadas não é algo exclusivo da Teologia, antes, é algo muito comum em nosso dia a dia e é presente até mesmo nas ciências investigativas. O emprego de analogias para explicar coisas incompreensíveis, como Eli deve saber, é muito utilizado em ciências como Química, Física e Biologia de forma que grande parte do conhecimento que temos advindo destas ciências é fundamentado em boa parte em analogias. Tome por exemplo a Biologia e a Teoria da Evolução: toda a teoria da evolução nos fala sobre um processo chamado Seleção Natural. Ora, trata-se de nada mais do que uma analogia! Uma simples (e muito útil) analogia. Não existe “seleção” alguma na natureza. “Seleção” é uma ação realizada por um agente racional quando este, deparado por duas ou mais opções, escolhe uma (ou algumas) e pretere o restante de acordo com seus prévios propósitos. Estritamente falando não pode haver nenhuma “seleção” por parte da natureza entre espécies existentes, porém, ainda assim, o termo Seleção Natural é muito válido, pois, apesar do processo biológico de evolução não ser totalmente explicado pelo termo Seleção Natural, este termo nos ajuda a compreender alguns aspectos de como este processo ocorre. O mesmo pode ser dito sobre as analogias químicas úteis a nós como elétrons, nêutrons e prótons que, a rigor, jamais foram observados pelos seres humanos. Tais entidades nos ajudam a entender como acontecem os eventos em um átomo, porém tais entidades jamais foram observadas. Os sinalzinhos positivos ou negativos atribuídos a estas partículas não existem, jamais foram observados, mas, na ausência de uma explicação suficientemente válida, verdadeira e observável de como as reações acontecem em um átomo, que mal há em se utilizar analogias, se elas nos ajudam a compreender algumas questões?
O terceiro ponto que consegui enxergar no argumento contingencial contra a existência de Deus, proposto por Eli Vieira, portanto, é que ele é baseado em uma inocente confusão sobre o emprego das analogias em relação a Deus. Ninguém jamais falou que Deus é (em todos os sentidos) uma mente. Menos ainda, ninguém jamais falou que Deus é uma mente como a mente humana. A Bíblia na verdade diz que Deus é Espírito (João 4:24). O problema é que ninguém jamais viu um espírito. Não é algo que possamos ver no Youtube ou conseguir uma definição na Wikipedia. Sem saber como representar um Espírito o escritor de Gênesis usou o termo “vento” para simbolizá-lo analogamente. Outras pessoas usaram e usam o termo “mente” como analogia ao Espírito porque, dentre as coisas que conhecemos nesta vida, a mente seria a que mais se assemelharia ao que venha a ser um Espírito. Dizemos que Deus é como uma mente, mas ninguém jamais quis dizer que uma mente corresponde exatamente, e em todos os sentidos, ao que Deus é. “Mente” é apenas uma analogia (limitada, como todas as outras) a Deus. “Deus ouve”, “Deus vê”, “Deus observa”, “Deus espera”, “Deus sente”. Todas estas expressões são formas simples e limitadas de tentar explicar o Ser de Deus de forma análoga.
Portanto, longe de querer encerrar a questão levantada por Eli Vieira, eu levantei neste texto três pontos invalidadores à objeção contingencial de Eli à hipótese da existência de Deus. Em primeiro lugar, ela pressupõe o ateísmo em sua premissa mais importante (a forma pela qual a mente humana veio a surgir); em segundo lugar, a objeção de Eli faz uso de um tipo de “argumento da ignorância”, ao propor que, uma vez que desconhecemos outros tipos de mente, as origens o tipo de mente que conhecemos necessariamente devem ser aplicados a qualquer proposta de mente que venha a surgir; e em terceiro lugar, Eli comete o erro infantil de imaginar que, ao atribuirmos alguma característica ou estado humano a Deus na tentativa de compreendê-Lo, necessariamente, estamos condicionando Deus a estas características ou estados.
Não vejo motivos, portanto, para levar em conta a objeção levantada por Eli em “Opiniões, mentes e peixes”, pelo menos da forma como ela foi exposta.
-
Autor: Eliel Vieira
Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que dê os devidos créditos ao autor, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.
Leu? Gostou? Então ajude a divulgar este texto e este blog. Clique em "Share", logo abaixo, e divulgue este texto entre seus contatos de e-mail e redes sociais!
.







Esses são erros que ateus costumam cometer, principalmente pressupor que o ateismo é verdadeiro.
Não li seu texto todo. Na verdade é por que não sou dotado da capacidade intelectual necessária para entender como tal objeção fajuta nos leva a concluir a inexistência de Deus. Há de se forçar muito a barra!!!!
Como disseste "a questão de Eli parece pressupor a conclusão do ateísmo.".
Nisto se exprime o "delírio de Eli"
Abraço
Vitor
Só faço uma objeção ao comentário do "Porque creio": essa falácia de petição de princípio (ou círculo vicioso) é usada tanto por ateus quanto por crentes. Consiste em tomar por verdadeiro o que se deveria provar. Na forma identificada pelo Eliel fica assim: É impossível que Deus exista, logo Deus não existe.
Na formulação teísta fica assim: Uma vez que Deus existe, logo é verdadeiro que Deus existe.
Quer um exemplo? Utilizar de passagens bíblicas para argumentar em favor da existência de Deus, ou de seus atributos é assumir que a bíblia é infalível (por ser inspirada por Deus). Ficaria assim:
Se a bíblia diz A, então A é verdadeiro.
A bíblia diz A
Logo A é verdadeiro.
A primeira premissa só é assumida se o leitor aceitar a inspiração divina da Bíblia.
O difícil no campo da filosofia da Religião é não incorrer em petição de princípio.