Onde Está a Paz de Deus?

Ler as cartas que o apóstolo Paulo enviou aos Filipenses (vamos à curiosidade bíblica do dia – o que conhecemos como Carta aos Filipenses é, na verdade, uma coletânea de três bilhetes enviados pelo apóstolo aos cristãos de Filipos em tempos distintos) sempre me traz insights muito interessantes sobre o cotidiano cristão, a prática de vida cristã que devemos ter.

Minha atenção desta vez ficou focada em um trecho do quarto capítulo da carta de Paulo aos Filipenses. Vamos ao texto:


Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos. Seja a vossa equidade notória a todos os homens. Perto está o Senhor.

Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus.

Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai.

O texto acima contém princípios valiosíssimos que a Igreja aparentemente não põe em prática. A começar pelo “seja sua equidade notória a todos os homens”, o que – convenhamos – quase nunca aconteceu no geral. Com exceção de alguns poucos momentos, desde o século IV a Igreja cristã tem sido conhecida mais pelo seu desequilíbrio e obscuridade (para não falar nos escândalos) do que pela sua equidade. E o texto não diz que nossa equidade deve ser conhecida, mas que ela deve ser notória, ou seja, digna de nota – irrepreensível.

Mas o que me confrontou (afinal eu também faço parte da boiada criticada neste texto) neste trecho bíblico de fato foi o fator “paz”. De acordo com o texto, a paz de Deus é algo tão maravilhoso que excede nossa capacidade de entendimento. Para tê-la, basta a nós entregarmos nossos anseios a Deus.

Em resumo o texto nos diz que devemos entregar a Deus todas as nossas preocupações, todos nossos anseios, dúvidas e dificuldades e, assim, teremos a “paz de Deus”, que excede todo o entendimento. E devemos ser assim não apenas em nossa vida particular, mas também enquanto igreja devemos entregar a Ele nossas dificuldades, anseios, preocupações, etc.

Sendo assim, a minha pergunta é: por que a igreja evangélica se preocupa tanto com o Diabo? Por que existem “cultos de batalha” e “cultos de poder” onde as pessoas oram gritando e com raiva? Por que a Igreja recorre a lobby político para atingir alguns objetivos? Por que não podemos, como igreja, simplesmente confiar os problemas e dificuldades para Deus e termos “paz”?

E, "quanto ao mais (...) tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai". Ou seja, não pensemos em diabo, em inferno, nestas ou outras coisas inventadas pelos homens. Ocupemos nossa mente com o que é verdadeiro, honesto, justo, puro, amável e de boa fama! Ocupemo-nos com o Evangelho!

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Autor: Eliel Vieira
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Resenha: “Fruto Sagrado 20 anos” – Fruto (Sagrado)

Para quem acreditava que a banda Fruto Sagrado havia acabado – bem, acertou! Pelo menos em certo sentido, “Fruto Sagrado” não existe mais. O grupo agora atende pelo nome de “Banda Fruto”. O que levou a isso – se problemas judiciais, briga entre membros, empresários – eu sinceramente não sei.

Mas não apenas o nome mudou, Fruto está com novo vocalista, Vanjor, do qual falarei durante a resenha de seu novo (ou seria primeiro?) álbum, “Fruto Sagrado 20 anos”. Muitos fãs ficaram frustrados com este álbum, pois a maior parte dele consiste apenas de regravações de clássicas baladas (e outras nem tão baladas assim) da banda – já outros gostaram, pois ele mostra que a banda ressuscitou, e que poderá no futuro próximo (quem sabe?) voltar à rotina de lançamentos inéditos e turnês.



Enfim, vamos ao material novo da banda.

O álbum começa com a linda música “Noite de Paz”, gravada originalmente no álbum “O que na verdade somos”. A letra dispensa comentários, o Bené simplesmente arrasou na mensagem desta música. Trata-se de um soco na cara de quase todos os cristãos, que tomam o Natal como tudo, menos como uma recordação do Cristo foi de fato. Musicalmente falando, esta nova versão traz pontos positivos e negativos – um positivo seria o novo arranjo, bem “gostoso” de ouvir; o negativo fica com a interpretação que o vocalista Vanjor fez dela (algo recorrente durante todo o álbum). O timbre de voz dele é perfeito, mas para este CD em específico faltou sentimentos em sua voz. Por exemplo, o sarcasmo na frase “eu acho que vocês acham que eu sou um débil, mental” – ele cantou esta passagem como alguém que lê uma receita de bolo – sem sentimento algum.

A seguir outra regravação vinda do “O que na verdade somos”, com a música “Diferente dos anjos”. Não há muita diferença entre as duas versões, para falar a verdade. A crítica sobre da “falta de sentimentos” dita na música anterior é válida aqui também, porém nessa música Vanjor se sai melhor. Algo que senti falta nesta música foi os vocais back.

A terceira é uma regravação da própria “O que na verdade somos”. Eu achei que a interpretação de Vanjor nesta música ficou até mais legal que a versão original do Marcão (ex-vocalista). A música aparentemente combina com o timbre de voz do Vanjor, então o resultado foi positivo – gostei de ouvi-la.

Temos a seguir a primeira faixa inédita do disco, "Ao fim do dia". O arranjo de cordas é gostoso de ouvir, relaxante, e a letra da música vai agradar aos apaixonados. É difícil falar mais do que isto, a música é um tanto monótona, para falar a verdade. Graças a Deus ela tem apenas 2:30 min.

A quinta música é uma regravação acústica da tecno-trash “Sanguessuga”, também do álbum “O que na verdade somos”. Meu comentário é: não colou. A execução foi ok, mas tirando a característica mais marcante da versão original – os gritos de Marcão – e substituindo pela voz melancólica e constante de Vanjor foi um tipo de suicídio. Esta nova versão começa a ficar boa apenas lá pelos 3:10, quando uns solos e umas variações de bateria entram para despertar quem a estava ouvindo.

“Superman” é a próxima. Pouca diferença em relação à versão original. Até as partes orquestradas aparecem nos mesmos momentos nas duas versões.

A nova versão de “Não quero mais acordar assim” (a famosa “melô de Jó”) me agradou em alguns pontos. É agradável de se ouvir. Porém ela peca nos mesmos pontos já comentados acima.

“Escravos do Porvir” é a outra faixa inédita deste álbum. De longe ela é melhor que “Ao fim do dia” – possui variações, um Q meio progressivo, e uma letra tipicamente “Fruto Sagrado”: crítica inteligente. A mensagem possui um apelo existencialista, provavelmente surgida após alguma leitura do livro de Eclesiastes. Vanjor aparentemente estava mais à vontade para cantar esta música. Tudo “encaixou” nela – faltou só alguns vocais back.

A penúltima faixa é uma regravação de “O Sangue de Abel”, uma das mais trabalhadas (em termos líricos) músicas da história do Fruto. Esta regravação contém a participação especial de João Alexandre, que certamente enriquece seu conteúdo. O que mais faz falta nesta versão é – de novo – um maior sentimento naquilo que se canta. A melhor parte da música fica por conta do trecho cantado por Henir Passos (o que é apenas um hiato na música).

Por fim “Ninguém me encontrará entre os fracos” e ao invés de comentar sobre ela especificamente, vou fazer um resumo geral deste álbum, pois as considerações que faria sobre esta música seriam as mesmas que farei logo abaixo, para o álbum como um todo.

Primeiro, a voz de Vanjor ficou monótona demais. As interpretações não exprimiram sentimentos, e isto descaracterizou as músicas da banda (especialmente as regravações). Segundo, faltaram os importantes vocais back nas músicas de todo o álbum, o que as deixou incompletas em vários sentidos. Terceiro, já que tratou-se de regravações, poder-se-ia ter modificado os arranjos das mesmas, criando um ambiente musical diferente do que estávamos acostumados (mas sem exageros – a única em que vocês mudaram-na radicalmente, “Sanguessuga”, não ficou boa).

Bem, longe de que alimentar estas controvérsias sobre que “vocalista canta mais” é indiscutível o fato de que a banda Fruto perdeu com a substituição de Marcão por Vanjor. Não crítico no intuito de machucar – bem pelo contrário: graças a Deus que as deficiências foram vistas em um álbum de regravações, pois a banda pode rever alguns pontos a partir das críticas, e assim trabalhar melhor algum futuro lançamento com inéditas. Pelo que li Vanjor é jovem, e se este for o caso, sucesso para você cara! Trabalhe afinco sua voz e, principalmente, cante com sua alma; cante de forma que sua voz transmita o sentimento da música.

Eu realmente espero que o Fruto renasça das cinzas, com álbuns novos e turnês. Basta apenas ajustar alguns pontos (pequenos, mas importantes) musicais e, acredito, a banda vai voltar a ser a referência que um dia já foi. Torço por isto.

Quanto ao álbum, nota 6/10 para ele. Apesar dos pontos negativos, foi um álbum que eu gostei de ter adquirido.



Eliel Vieira
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Moralidade Ordenada por Deus e Voluntarismo (por William Lane Craig)


Se os valores morais são absolutos e objetivos, como pode Deus aparentemente transgredir estes valores e ainda ser chamado de Santo? Se Deus é santo mesmo comentendo atrocidades, não estaríamos incorrendo em uma espécie de subjetivismo? Neste texto o Dr. William Lane Craig propõe uma resposta a esta questão.

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O Pressuposto Equivocado da Volta Iminente de Jesus


Desde os meus 17 anos comecei a perceber algo estranho nas pregações evangélicas nas igrejas onde eu freqüentei ou visitei: as pregações quase sempre possuíam um apelo apocalíptico, escatológico. Em alguns casos este apelo é sutil, subliminar, escondido; já em outros ele é descarado, narrado claramente, salta-nos à vista.

A diferença entre uma pregação “comum” e uma de teor apocalíptico pode ser demonstrada nos exemplos hipotéticos abaixo:

Pregação Comum: Devemos pregar o Evangelho, pois devemos compartilhar com outras pessoas aquilo que recebemos gratuitamente.
Pregação Apocalíptica: Devemos pregar o Evangelho, pois Jesus está quase voltado e quem não se converter vai ir para o quinto dos infernos!

Pregação Comum: Devemos alimentar nossa fé, pois Deus deseja que sejamos cada vez mais conscientes de nossa fé.
Pregação Apocalíptica: Devemos alimentar nossa fé, pois nos últimos dias a Igreja será perseguida e que não estiver firme vai “cair”.



Eu não estou dizendo aqui que as pregações não devem conter asserções escatológicas. Não, não é isto! O que eu estou dizendo é que pelas observações que tenho feito, percebi que grande parte das pregações se justifica apenas escatologicamente e, como eu vou explicar ao longo deste texto, eu considero isto um pouco prejudicial de certa forma.

Ora, existem vários motivos pelos quais devemos pregar o Evangelho ou alimentar nossa fé, não apenas motivos escatológicos. A justificativa para eu alimentar minha fé poderia ser, por exemplo, porque eu quero ser uma pessoa mais consciente daquilo em que eu acredito. A justificativa não precisa ser necessariamente escatológica.

Mas, por que as pregações possuem em geral um apelo apocalíptico forte? A razão disto, em minha opinião, é porque um pressuposto “relativamente verdadeiro” está sendo equivocadamente tratado como “absolutamente verdadeiro” pelos evangélicos. O pressuposto de que “Jesus está voltando”.

Em certo sentido, sim, Jesus está voltando, afinal, a cada dia que passa a volta de Jesus se aproxima em um dia. Se ontem faltavam 587.429.847.281.794 dias para Jesus voltar, hoje faltam 587.429.847.281.793 para isto acontecer. Então, sim, a volta de Jesus está se aproximando. Porém, o equívoco está em começar a afirmar, por exemplo, que a volta de Jesus Cristo é um evento iminente, que acontecerá dentro de alguns dias ou meses.

Sinceramente, os eventos apontados como “sinais do fim dos tempos” não são tão convincentes assim como os pastores evangélicos dizem que são.

Alguns dizem, por exemplo, que o mundo nunca esteve tão sem amor. Eu não concordo! Já passamos por momentos na história onde o amor estava muito mais frio que atualmente. Existiu uma época no ocidente em que um pai não tinha problemas em afogar sua filha apenas porque queria que seu filho nascesse homem. Seqüestros, assaltos, assassinatos, pedofilia, preconceito, fome, egoísmo, escravidão? Em que período a história viveu sem a incidência destas coisas? Elas sempre aconteceram!

E por mais incrível que isto possa soar, ao que parece o mundo até “melhorou de vida” nas últimas décadas. Vejam, por exemplo, as palavras do escritor Philip Yancey sobre este assunto:


Há trinta anos a incidência global de analfabetismo era de 47%; agora somente 20% dos adultos não sabem ler. A porcentagem de pessoas desnutridas caiu pela metade, assim como a porcentagem de pessoas vivendo em moradias precárias. Três em cada quatro pessoas não tinham acesso a água potável; agora três em cada quatro têm acesso (...) Há trinta anos, uma em cada oito crianças morria no primeiro ano de vida; agora a proporção é a metade. (Fonte: Descobrindo Deus nos Lugares Mais Inesperados).

Outro evento atual apontado é a dita “perseguição da Igreja”, como prova de que o “fim está chegando”. Alguns dizem que a igreja jamais foi tão perseguida quanto ela é hoje, sendo está perseguição, assim, uma evidência de que a volta de Jesus está próxima.

Será? Será que a “perseguição” atual se compara com o que os apóstolos passaram entre o primeiro e o quatro séculos? Será que a atual “perseguição política” se compara com o que Roma fazia com os cristãos quando os capturava? Será que a perseguição atual se compara à perseguição sofrida por Dietrich Bonhoeffer e os outros cristãos alemães que lutaram contra o Nazismo de Hitler?

Alguém pode levantar a seguinte questão neste ponto: ora, mas qual é o problema em pensar que a volta de Jesus é iminente?

Em minha opinião, apesar desta crença trazer conforto a algumas pessoas, em outros aspectos ela é prejudicial.

Quando Paulo escreveu pela primeira vez aos cristãos de Tessalônica, o apóstolo advertiu aos cidadãos sobre a volta de Jesus (I Ts 5), advertindo as pessoas que estivessem em estado de vigilância quanto ao “Dia”. Ou Paulo não dosou bem suas palavras, ou as pessoas as interpretaram de forma errada, mas as advertências de Paulo quanto ao “Dia” geraram um grande tumulto em Tessalônica (aparentemente os cidadãos começaram a vender tudo o que tinham a preço de banana) a ponto de na segunda carta a eles Paulo escrever aos tessalônicos que “não percais tão depressa a serenidade de espírito (...) como se o Dia do Senhor estivesse próximo” (II Ts 2).

Os tessalônicos entenderam tudo errado, assim como muitos evangélicos entendem tudo errado em relação à volta de Jesus hoje em dia. O fato de o futuro estar definido não tira nossa responsabilidade sobre o presente. Uma das maiores babaquices que já ouvi de um pastor foi que não devemos nos preocupar com o meio ambiente, nem com aquecimento global; nós devíamos, disse o pastor, nos alegrarmos com tais coisas, pois estas catástrofes foram profetizadas pela Bíblia, e a ocorrência delas aponta para a volta de Jesus.

Em uma escala muito menor o teor escatológico das pregações gera conformismos prejudiciais semelhantes. Pouquíssimo se fala sobre compromisso social com meio-ambiente nas igrejas, sobre o uso racional da água e de outros recursos naturais, sobre sustentabilidade. Afinal, se este mundo está fadado à destruição, e se nossa pátria será nos céus, por que vamos perder nosso tempo e nossa energia cuidando deste planeta se ele será destruído? Por que vamos nos dar ao trabalho de imprimir o jornalzinho da igreja em papel reciclado? Por que preocupar-nos com a educação? Por que preocupar com a qualidade de vida dos países mais pobres?

Há alguns meses atrás eu ouvi o absurdo de que a África não precisa de nenhum cuidado, nem de dinheiro, nem de recursos; a África precisa apenas de Jesus (como se Jesus matasse fome).

Deus não quer que pensemos assim! Mas o apelo escatológico freqüente nos ouvidos das pessoas gera a idéia de que toda a realidade se justifica apenas á luz dos eventos do fim, e que qualquer esforço feito aqui no sentido de melhorar as condições do planeta é inválido.

A Bíblia diz que a fé vem pelo ouvir (Rm 10:17). Em certo sentido, o tipo de fé que você tem depende daquilo que você ouve. Se você só ouve asserções apocalípticas, sua fé se fundamentará apenas nisto, e você não conseguirá pensar quaisquer outras justificativas para quaisquer ações, a não ser que estas sejam justificativas apocalípticas.

A minha conclusão, a partir de minhas observações, é que a ênfase demasiada em fatos escatológicos gera cristãos incompletos, sem senso de responsabilidade com o tempo atual.

Sei que muitos pastores visitam este blog, portanto, vos peço, revejam este ponto antes de elaborar suas pregações. A saúde espiritual de sua congregação agradece!


Eliel Vieira
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Avatar e Panteísmo

Depois de vários sucessos cinematográficos como Exterminador do Futuro e Titanic, James Cameron trouxe à existência outra belíssima obra cinematográfica, o filme Avatar, que após bater vários recordes de bilheteria e faturamento, concorrerá a nove estatuetas do Oscar este ano.

A história futurística acontece em algum lugar longínquo próximo à estrela Alpha Centauri. Lá, militares humanos (americanos, claro) travam uma guerra contra os habitantes nativos, os Na’vi, por causa dos recursos naturais existentes em Pandora, planeta (sic) onde habitam os Na’vi. “Avatar” se refere aos corpos humanos-Na’vi criados pelos seres humanos, que capacita qualquer terráqueo a ter o mesmo tamanho, velocidade, aparência e força do que um Na’vi comum. Por trás da guerra pelos recursos naturais de Pandora, se desenvolve uma trama de deserção e amor entre um humano e uma Na’vi.

Tenho lido recentemente por parte dos cristãos muitas críticas (injustas a meu ver) a este filme. A principal destas críticas é a que Avatar prega alguma espécie de panteísmo em sua história e, assim, criticam os cristãos, o filme deve ser evitado ou (1) por ser herético, ou (2) por gerar confusão na mente daqueles que o assistem.

Meu texto é uma resposta rápida, curta e direta a esta crítica.

Em primeiro lugar, Avatar é uma obra de ficção e deve ser tratada como tal. Avatar não é (nem a priori, nem a posteriori) uma obra de apologia a algum pensamento religioso particular, muito menos um tratado teológico.

É correto dizer, sim, que na história de Avatar o “sobrenatural” se assemelha mais à visão panteísta de mundo do que ao Teísmo Clássico defendido pelos cristãos. Porém, Avatar não foi o primeiro filme a fazer isto. A série Guerra nas Estrelas (minha favorita, aliás) já ensinava um panteísmo semelhante com o poder da “Força” (“Luke, que a Força esteja com você!”). E não foi apenas o panteísmo já foi pressuposto em filmes americanos, o filme Sinais (estrelado por Mel Gibson) possui uma mensagem claramente cristã (eu diria até calvinista-determinista) em sua história. E, por falar em calvinismo, quem não conseguiu identificá-lo no recente filme Presságio (estrelado por Nicolas Cage)?

Eu não vejo tantos problemas assim em um filme (ou qualquer peça artística que tenha como objetivo principal entreter as pessoas) levar em consideração em sua história alguns pensamentos religiosos – sejam eles quais forem. Quando explorado pela arte, o mistério por trás do qual Deus se esconde, toma outra forma. Ele mexe com nossa imaginação, e também com nossas emoções. Especulações religiosas enriquecem qualquer filme. Quantos cristãos (inclusive os que criticam Avatar) não se emocionaram com o clássico filme Ghost: do outro lado da vida, apesar de ele pressupor uma visão “espírita” de mundo?

Eu particularmente gostei bastante de Avatar, e não precisei, para isto, começar a acreditar que o panteísmo é verdadeiro, assim como não passei a acreditar na existência de bruxos quando vi a série Harry Potter, nem na existência de Trolls quando li Senhor dos Anéis, nem a existência de Faunos quando li As Crônicas de Narnia. No que se refere a “religião”, os filmes de entretenimento são para mim completamente inofensivos. Ademais, não há motivos para acreditar que Cameron queria fazer apologia ao panteísmo. O mesmo Cameron que se utilizou do panteísmo em Avatar utilizou o conceito cristão de “vida após a morte” para enfeitar o final de Titanic.

Em segundo lugar, eu acho que os cristãos (tanto os americanos quanto os brasileiros) têm mais com o que se preocupar além de criticar filmes de entretenimento que pressupõem pensamentos religiosos diferentes dos deles (neste caso, “nossos”). O maior mercado pornográfico do mundo vem dos Estados Unidos, da mais influente nação “cristã” do mundo e, convenhamos, existe muito mais heresia nos programas de TV evangélicos atuais do que em Avatar .

É muito mais urgente tirar um Malafaia ou um Macedo da TV do que impedir que as pessoas assistam Avatar. O filme de Cameron não pretende apresentar uma visão espiritual de mundo como verdadeira, mas as heresias que os pastores ladrões pregam na TV, eles pregam com o intuito objetivo de que as pessoas acreditem nelas; e, infelizmente, muitos acreditam!

Olha que incoerência cristã: prefere-se criticar filmes não-cristãos por eles não serem cristãos do que criticar cristãos que não agem como cristãos.

Eu resumiria esta segunda crítica minha da seguinte forma: temos mais com o que nos preocupar para podermos nos dar ao luxo de criticar aquilo que sequer deveria ser criticado. Não se pode exigir de Avatar um conhecimento teológico correto assim como não se deve exigir de uma criança de seis anos que ela consiga resolver cálculos matemáticos para os quais ela não tem capacidade de resolver.

Concluo, portanto, que Avatar foi um grande filme – em todos os sentidos o filme surpreendeu as minhas expectativas – e que as críticas cristãs a ele são desprovidas de senso.

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Autor: Eliel Vieira
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Resenha: “Criação e Evolução: 3 pontos de vista” – J. P. Moreland & John Reynolds

"Um livro diferente". É assim que resumiria em uma única frase o livro Criação e Evolução: 3 pontos de vista editado por J. P. Moreland e John Reyolds e lançado do Brasil pela Editora Vida.

A diferença gritante deste livro em relação aos demais encontra-se em sua estrutura. Ele não foi escrito apenas no intuito de defender um único ponto de vista em detrimento dos outros abordados (como geralmente acontece). Neste livro encontramos as três posições referentes à controvérsia entre criação e evolução defendidas, replicadas e treplicadas.

Paul Nelson e John Reynolds apresentam ao leitor a teoria criacionista clássica (a Terra e os seres vivos foram criados a menos de 10 mil anos atrás diretamente pela mão de Deus); o “criacionismo progressivo” (mais conhecido como Design Inteligente) foi defendido por Robert Newman; e a teoria da “Evolução Teísta” (ou, como o autor a batizou, a “criação de potencial pleno”) foi proposta por Howard Van Till.




Todas as três explanações foram replicadas por Walter Bradley, John Davis, J. P. Moreland e Vern Poythress. Após as réplicas cada teoria teve uma oportunidade de tréplica, em forma de conclusão, por aqueles que a apresentaram inicialmente.

O formato do livro lembra um debate, e aí está seu diferencial. A leitura (que no começo era meio tediante) começa a ficar interessante e gostosa a partir do momento que lemos as réplicas e que vemos o quanto os apologistas que nós “admiramos” discordam entre si. Em alguns casos as discordâncias são “melosas” demais, em outros, no entanto, elas chegam a ser duras e fortes. Howard Van Till (defensor do teísmo evolucionista) chegou a ser acusado de ser deísta, e até panteísta – o que no evangeliquês fundamentalista é algo como “Seu herege! Converta-se ou vais queimar no quinto dos infernos!”.

Por esta ser uma resenha crítica (e não um resumo), não vou aqui detalhar as argumentações de cada apologista. Algumas interessantes considerações, porém, podem ser feitas: Paul Nelson e John Reynolds não tiveram vergonha alguma dizer que a teoria que defendem (criação recente da Terra) não possui sustentação científica alguma e que é defendia apenas por causa de sua interpretação literal dos primeiros capítulos de Gênesis (os autores afirmam que têm esperança de que algum dia tais evidências científicas surgirão); J. P. Moreland (que muitos acreditam ser adepto do Design Inteligente) fica flertando com a posição da criação recente (fico imaginando o quanto ele deve torcer e orar para que surja alguma evidência de que a Terra possui apenas alguns mil anos de idade); Robert Newman (defensor do Design Inteligente) foi magnífico em sua refutação à teoria da idade recente da Terra, mas foi fraco em explicar porque o mesmo argumento usado por ele não se aplicam a uma refutação da teoria do Design Inteligente.

Em minha opinião Howard Van Til foi o melhor dos argumentadores. Não apenas pela sua explanação utilizar menos ad hoc que as demais, mas também pela sua forma de escrever: organizada, direta e concatenada. O maior mérito do autor foi mostrar porque não há razões racionais para acreditar que a controvérsia “criação e evolução” deve ser tratada da forma “um ou outro” (por que não “um e outro”?).

Daqueles que replicaram as exposições, o que mais me agradou foi Vern Poythress. Seus questionamentos foram bastante perspicazes nas três réplicas feitas por ele. O livro termina com dois pós-escritos: as conclusões de Richard H. Bube (que parece defender o teísmo evolucionista) e Philip E. Johnson (advogado e figura carimbada do movimento Design Inteligente).

Como eu disse Criação e Evolução: 3 pontos de vista é um livro diferente. A maneira como ele foi escrito sem dúvida estimula o aprendizado. Quanto à controvérsia “criação e evolução” em si, minha opinião é que os cristãos já tomaram marretadas suficientes para terem aprendido que a postura “Deus nas Lacunas” traz apenas prejuízos à credibilidade intelectual da fé e que, portanto, deve ser o máximo possível evitada.


Eliel Vieira
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A Morte de Deus e a Morte de Cristo (por William Lane Craig)

Olá Dr. Craig,

Eu gostaria primeiramente de agradecê-lo pelo tempo e trabalho que você dispensa ao seu ministério. Tem me beneficiado grandemente e foi o seu exemplo que me fez estudar e conseguir uma graduação em filosofia.

Sobre a minha questão, eu nunca consegui uma resposta clara a ela. Quando Jesus morreu na cruz, Deus morreu? Se sim, a essência de Jesus verdadeiramente morreu?

Esta questão realmente me incomodou enquanto eu estava escutando a música And Can it Be? [E pode ser?]. Tem uma parte nela, no fim do coro, que diz “Amazing Love! How can it be that Tho my God shoudst die for me? Amen!” [Grande amor! Como pode ser, Tu, meu Deus, morrer por mim? Amém!].

Eu nunca consegui uma resposta clara e concisa para esta questão e parecem existir diferentes opiniões entre os teólogos sobre a natureza desta questão. O pastor John MacArthur parece acreditar que Deus morreu, uma vez que Jesus é Deus. Já R. C. Sproul discorda e acredita que Deus não pode morrer.

Eu não consigo entender como pode ser possível que Deus pudesse verdadeiramente morrer. Por que se Deus pudesse, Ele não seria um Ser metafisicamente necessário. Mas isto é impossível porque, por definição, Deus deve ser necessário. Assim, quando Cristo morreu na cruz, foi apenas sua parte humana que morreu?

Esta é uma questão difícil, e eu apreciaria muito se você pudesse lançar alguma luz sobre ela.

Muito obrigado,

Jesse


Resposta do Dr. Craig:

Não pude resistir à sua questão, Jesse, uma vez que ela apela ao meu hino favorito, o magnífico And Can it Be?, de Charles Wesley. Eu desafio qualquer cristão que conheça apenas músicas de louvor e a adoração a ouvir este hino e contemplar sua maravilhosa letra sobre o incrível amor de Deus.

Sua questão é uma das que confunde nossos amigos mulçumanos e é, portanto, muito urgente. Felizmente, a Igreja cristã histórica já discutiu esta questão de forma clara.

O Concílio de Calcedônia (451) declarou que o Cristo encarnado era uma pessoa com duas naturezas, uma humana e outra divina. Isto gerou conseqüências muito importantes. Isto implica que, uma vez que Cristo existia antes de sua encarnação, ele era um ser divino antes de falarmos sobre sua humanidade. Ele foi e é a segunda pessoa da Trindade. Na encarnação, esta pessoa divina assume uma natureza humana também, mas não há outra pessoa em Cristo além da segunda pessoa da Trindade. Existe um acréscimo de natureza humana que o Cristo pré-encarnado não tinha, mas não há acréscimo algum de uma pessoa humana à pessoa divina. Existe apenas uma pessoa, com duas naturezas.

Portanto, o que Cristo disse e fez, Deus disse e fez, uma vez que quando falamos de Deus, estamos falando sobre uma pessoa. Esta é a razão do Concílio falar de Maria como “a mãe de Deus”. Ela carregou no ventre uma pessoa divina. Infelizmente, esta linguagem tem sido desastrosamente interpretada, porque soa como se Maria tivesse dado a luz à natureza divina de Cristo quando de fato ela deu a luz à natureza humana dele. Maomé aparentemente ensinou que os cristãos acreditavam que Maria era a terceira pessoa da Trindade, e Jesus era o descendente da relação entre Deus Pai e Maria, uma visão que ele corretamente rejeitou como blasfema, não obstante nenhum cristão ortodoxo a abraçasse.

Para evitar tais desentendimentos, é proveitoso falar do que ou como Cristo fez em relação a uma das suas naturezas. Por exemplo, Cristo é onipotente em relação a sua natureza divina, mas é limitado em poder em relação a sua natureza humana. Ele é onisciente em relação a sua natureza divina, mas ignorante sobre vários fatos em relação a sua natureza humana. Ele é imortal quando nos referimos a sua natureza divina, mas mortal quando nos referimos a sua natureza humana.

Você provavelmente já consegue entender agora aonde eu quero chegar. Cristo não poderia morrer em relação a sua natureza divina, mas ele poderia morrer em relação a sua natureza humana. O que é a morte humana? É a separação da alma do corpo quando o corpo cessa de ser um organismo vivo. A alma sobrevive ao corpo e se unirá com ele novamente algum dia em forma ressurreta. Foi isto que aconteceu com Cristo. Sua alma se separou do seu corpo e seu corpo cessou de viver. Por alguns instantes ele desencarnou. No terceiro dia Deus o ressuscitou dos mortos em um corpo transformado.

Em parte, sim, nós podemos dizer que Deus morreu na cruz porque a pessoa que submeteram à morte era uma pessoa divina. Então Wesley estava totalmente correto em perguntar “Como pode ser, Tu, meu Deus, morrer por mim?”. Mas dizer que Deus morreu na cruz é conduzir erradamente a questão, da mesma forma como fazem quando dizem que Maria era a mãe de Deus. Assim eu acho melhor dizer que Cristo morreu na cruz em relação a sua natureza humana, mas não em relação a sua natureza divina.

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Autor: Dr. William Lane Craig
Tradução: Eliel Vieira
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